O que acho da Bel Pesce

Primeiramente, desculpa pelo sumiço, não é que não andei postando, estive postando no meu blog em inglês dedicado ao meu estágio na Mozilla: outreachy.anaplusplus.com

Resolvi comentar isso por causa dos escândalos recentes que envolveram o Zebeleo, que trouxeram a Bel para a mídia denovo e também porque muitas vezes as pessoas fazem uma associação minha com a Bel, dizem “Você deve amá-la” ou algo assim.

Descobri a Bel em 2011 ou 2012, quando ela estava começando a sua carreira de sub-celebridade e eu era uma estudante do ensino médio. Eu me lembro que ao ouvir falar da história dela, uma garota brasileira que tinha estado no Vale do Silício e no MIT (onde sonhava estar e felizmente já estive) e que tinha contado tudo isso num livro “A menina do vale”, me senti super mega inspirada para ler  o livro dela, me senti inspirada a continuar na carreira de informática e me senti representada.

Fiquei ainda mais feliz quando descobri que poderia fazer o download gratuíto do livro dela, sempre pensei que os livros deveriam ser gratuítos e paga quem pode e/ou quem quer ter uma qualidade melhor para o autor. O modelo que “A menina do vale” é distribuído é o modelo que sempre pensei que todos os livros deveriam ser distribuídos, fiz o download duma vez e comecei a ler o livro da tal pessoa: devo confessar que esperava mais. Nem lembro se terminei de ler ou não o livro, mas me lembro que foi uma pequena decepção, esperava ler mais sobre o dia-a-dia no vale do Silício, nos desafios que uma garota tem por lá, dentre outros. Mas o livro da Bel era só o tradicional discurso (muito perigoso por sinal) de “quem quer consegue, todo mundo pode fazer”.

Tudo bem, gostei da figura da Bel, mas não do livro num inicio de conversa, mas tudo bem, vida que segue. Além do livro, outra coisa que me decepcionou foi descobrir que a Bel Pesce não era mais uma menina do vale, que ela tinha voltado para se dedicar a escrever livros e fazer cursos sobre empreendedorismo (eu tinha gostado dela de início pelo fato de ser uma garota que trabalha com informática, se ela não é mais uma garota que trabalha com informática, por que gostaria dela?) mas não desisti ao todo da Bel, afinal ela ainda tinha sido “A menina do vale” e tinha distribuído seu livro da maneira que eu gostei.

Ano passado fui assistir uma de suas palestras do “Tour da Bel”, foi uma palestra legal porque encontrei conhecidos que não via faz tempo e que estavam lá e também porque ouvi historinhas que ela contou da vida dela, mas não achei que foi uma palestra enriquecedora e para mim soou como uma palestra para vender livros e curso. Fiquei com a impressão que a Bel é mais uma dessas figuras que vende o sonho de ficar rico para alguns tolos, e não a menina do vale amante de tecnologia de qual era fã no início.

Eu fiquei um pouco triste quando vi que ela queria abrir uma hamburgueria, um restaurante de carne que não tem nada a ver com tecnologia, não é um app, nem nada. Para piorar, queria dar chaveiros e camisetas para os investidores, no lugar do capital da empresa em ações equivalentes ao investimento. A Bel tecnológica que conheci no início, que imaginava ser uma grande programadora que escrevia linhas e mais linhas de código no vale do silício morreu na minha cabeça, para mim só existe uma Bel sem foco (que não sabe em que ela quer trabalhar, e tem 1 milhão de projetos mas nenhum com grande foco em desenvolver tecnologia de ponta), oportunista e charlatã como descrita no artigo do Izzy Nobre.

Não julgo as pessoas que se sentem inspiradas pelo discurso da Bel a se tornarem pessoas melhores, só digo que esse discurso não me inspira, nem a pessoa que ela se tornou. Eu julgo somente aqueles que apontam o dedo para um pobre e diz “Se quisesse poderia ter estudado no MIT como a Bel Pesce”, se esquecendo que os pais da Bel tinham grana no mínimo para bancá-la num dos melhores colégios particulares, pagar para ela fazer exames de admissão, etc.

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Empoderamento de mulheres na TI: é necessário?

O Gap na questão de gênero quando se trata da área de Tecnologia da Informação (TI) e demais STEM (Science, Technology, Engineer and Mathematics ou Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) é indiscutível: mulheres são definitivamente a grande minoria nessas áreas, é só procurar qualquer estatística ou colocar a cabeça em qualquer sala ou laboratório de cursos desta área. O ponto de discussão neste texto não é este, mas sim o crescente número de programas organizados por ONG’s, governos e empresas para empoderar mulheres na STEM e na TI, posso citar alguns caso vocês não conheçam nenhum: Women who code, Women Techmakers, Digi Girlz, Technovation Challenge, Grace Hopper Celebration etc.

Imagem ilustrando vários programas para garotas e computação.

Muitas pessoas criticam muitos desses programas por não serem algo definitivo: afinal com uma semana em alguma reunião escutando mulheres engenheiras, as garotas não vão deixar de ter dificuldade no mercado de trabalho, além disso muitos também argumentam que o importante é conscientizar os homens para aceitar e ajudar as mulheres e não empoderar as mulheres (daí vem programas como o da ONU he for she, etc). Outro ponto que alguns colocam é que na verdade as mulheres não sofrem preconceito, afinal por aqui, elas não levam um tiro na cara ao tentar ir para a escola como acontece no Oriente Médio. Ainda há alguns que falam que estas iniciativas querem dar oportunidades para mulheres que homens não tem, afinal passar uma semana ou ter algumas reuniões em um abiente empoderador não é algo que os homens tenham (haha, como se homens não fossem empoderados todos os dias).  Bem, a maioria desses argumentos são bem fora da realidade, vou falar com a minha visão de mulher na computação que já foi empoderada por alguns desses programas. De fato, acredito que nunca ninguém me impediu de estudar, ninguém nunca colocou uma arma na minha cabeça dizendo que se eu fosse para escola teria os meus miolos estourados. Nós mulheres lidamos com o machismo todos os dias, com comentários idiotas advindos de pessoas idiotas, desde as objetificações dos nossos corpos até comentários estilo “Você não deveria ter saído da cozinha”, mas isso não é “luxo” só da mulher nas Hard Sciences, todas as mulheres lidam com isso, não importa se ela estuda filosofia ou computação (este blog mesmo fala das besteiras que as mulheres na filosofia escutam https://beingawomaninphilosophy.wordpress.com/), a Academia é machista, a vida é machista. E não é só mulheres que sofrem preconceito, pessoas negras sofrem, pessoas pobres sofrem. Então por que é importante empoderar especificamente mulheres na TI e nas STEM’s? Eu queria contar um pouco da minha história para mostrar como isso mudou a minha vida.

Não preciso ser a Malala para sofrer de machismo na Academia!!

Quando eu tinha uns 11/12 anos, consegui uma das melhores colocações na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (a OBMEP), em consequência fui convidada para participar de um programa chamado PIC (Programa de Iniciação Científica), na época foi tudo uma surpresa pra mim, não achava que conseguiria ganhar um negócio desses, mas eu fiquei muito feliz e lá fui eu, com um caderninho debaixo do braço (depois de muita insistência da minha mãe, pois me auto-sabotava porque não era confiante o suficiente) caminhando para a Universidade para a minha primeira aula do PIC, ao chegar lá, senti pela primeira vez o impacto de ser uma garota na STEM: No programa tinham cerca de 20 pessoas e só eu era menina! Eu confesso que fiquei muito assustada, eu só era uma criança muito tímida que mal tinha coragem de falar com meninos, e ainda mais interagir com uma classe inteira só de meninos! Eu fiquei aterrorizada e desisti de participar do PIC na terceira au

PIC – OBMEP, primeira oportunidade que perdi por ser garota na STEM e insegura.

la. Foi a primeira vez que tinha perdido uma oportunidade de estudo e crescimento por ser menina, não porque ninguém tivesse colocado uma arma na minha cabeça, mas porque eu mesma tinha me complexado com aquilo, e acho que não estou isolada, quando penso em centenas de meninas chegando no seu primeiro dia de aula numa sala abarrotada de homens, o quão com medo e aterrorizada elas ficam. Felizmente nessa época eu ainda era muito jovem (tinha só 11 ou 12 anos!) e ainda teria várias oportunidades de entrar na STEM, o que não acontece com muitas mulheres que só vão sentir este impacto na graduação, onde já não há mais tempo de ter oportunidades de reentrar na área. No ensino médio resolvi fazer ensino técnico, e eu já fui um pouco mais preparada para ser a única menina da classe (meu pai tinha me dito “Você vai para escola técnica, só tem nerds e poucas garotas lá”, eu pensei: “Que besteira, meu pai deve estar brincando, esses esteriótipos são tão ultrapassados”, mas mesmo assim fiquei pensando na possibilidade), ao chegar na escola, no primeiro dia uma mulher nos disse: “Os alunos de informática me sigam”, e ao seguir não conseguia ver outra menina naquela multidão, ao sentar na classe, uma das minhas colegas me disse “parece que somos minoria por aqui”, e de fato éramos, no primeiro ano éramos 7 garotas e 33 garotos na nossa classe. Foi sim bastante impactante começar a estudar naquela classe com tantos garotos, era ruim quando eles resolviam ignorar que garotas existiam na classe e ficavam falando besteira, mas com o tempo me acostumei. Apesar de ter boas notas em disciplinas como programação, pensei em desistir da TI muitas vezes (e acredito que não foi só eu, eu sou a única menina da minha turma que está no momento fazendo um curso superior da área de TI), a sensação de auto-sabotagem era grande. Quando estava do segundo pro terceiro ano do ensino médio, tive a oportunidade de participar em um programa da embaixada dos EUA que infelizmente só aconteceu uma vez, chamado “Science Camp – elas na ciência”, destinado a empoderar garotas na ciência e aquilo foi o começo da desconstrução de vários complexos que tinha comigo mesma, passei a ser mais confiante e a acreditar mais que poderia fazer Ciência da Computação, depois eu participei de vários outros programas e conheci muitas outras mulheres incríveis, nesse outro post do meu blog falo mais sobre

Science Camp, elas na ciência. Primeiro programa de empoderamento de meninas na ciência que participei.

outros programas que participei sobre garotas e computação: https://blogdeviagensdea na.wordpress.com/2015/05/12/mulheres-na-computacao-hackathon-rodada-technovation-e-etc-e-como-tudo-isso-me-mudou/. Atualmente faço Ciência da Computação, trabalho num laboratório onde sou a única menina da sala, vou para turmas onde sou a única garota, já me sinto mais confortável apesar de as vezes ainda me sentir um pouco insegura, algumas pessoas as vezes tentam sabotar a minha segurança confundio-a com ser “metida”. O que eu quero concluir com isto tudo é que o meu maior inimigo como uma garota na TI e como uma garota nas STEM não eram os homens, (sim, ouço as vezes comentários idiotas de pessoas idiotas, desde “meninas não são boas em programação” até “meninas não deveriam ter saído da cozinha”) mas o meu maior problema eram os meus próprios complexos, a maneira como me sentia inferior aos meninos das minhas classes, apesar de que os comentários ruins e as vezes até algum tipo de assédio físico ajudassem a me sentir inferior, mas o meu maior inimigo era eu mesma, a minha cabeça. Por isso acho que é importante dizer para as meninas que elas são boas sim, que elas podem ser cientistas. Estes programas são muito importantes! =)

Mulheres na computação, hackathon, rodada, technovation e etc. e como tudo isso me mudou

Ano passado depois de ter participado do Hackathon de Gênero e Cidadania da Câmara dos Deputados, conheci uma gama de mulheres super acolhederas e inspiradoras, posso citar várias, a Salete, a Daniela, a Haydee (somente online), a Camila Lainette, Camila Carneiro, a  Kamila Brito e a Camina Achutti (somente online, putz quantas C(k)amilas =P), a Jutta, a Ivy, a Wal, a Maíra, a Ana Paula, a Raquel. Foram tantas (Espero não ter esquecido ninguém!). Foi uma experiência mais que incrível, elas me abrilham os olhos para vários problemas que eu não sabia que existiam e me mostraram que a vida pode ser injusta com nós mulheres mas cabe a nós lutarmos para que isso seja melhorado. Foi uma experiência definitivamente inesquecível. (E não só pelas moças, alguns rapazes que conheci lá foram fantásticos também, pontos para o Rafa e para o Diniz que me abriu os olhos para a integração dos deficientes na informática).

Eu e algumas dessas mulheres incríveis que conheci no hackathon

Mas felizmente não acabou por aí, apesar da distância física de todas as amigas e inspiradoras que fiz no evento, continuei em contato com várias delas e isso me proporcionou coisas extraordinárias, a primeira delas foi o prêmio de mulher inspiradora de 2014 do blog Think Olga na categoria tecnologia (e confesso que fiquei bastante tímida com o prêmio, acho que falta muita coisa para eu ser de fato uma mulher inspiradora xD, mas agradeço muito a indicação). Outra coisa muito legal foi a aproximação do Poli Gen (Grupo de Estudo de Gênero da USP, eu já conhecia o grupo, inclusive já tinha uma reportagem sobre mim no site do Poli Gen, não liguem para minha cara de tímida, mas não tinha contato com eles) e isso me proporcionou fazer parte de um grupo muito legal chamado RodADA Hacker e de saber mais sobre uma competição chamada Technovation Challenge.

Eu com cara de tímida na página da PoliGEN

O Technovation Challenge foi o último e um dos mais empoderadores desafios que participei. O Technovation consiste em procurar um problema social e construir um aplicativo que possa resolvê-lo, ele é voltado para garotas do ensino fundamental e médio (e como já estou na universidade participei como mentora). Confesso que me inscrevi no Technovation sem esperar nada do mesmo, mas foi uma experiência incrível, a primeira coisa que eles me fizeram foi me linkar com um grupo de garotas do meu estado (a Paraíba, fomos a única equipe do estado) com três meninas super amáveis, a Vitória, a Samara e a Gabriela. Eu adorei tentar passar um pouco da minha experiência para elas, foi bastante divertido e desafiador. Nosso time não acabou indo para uma final, mas cada momento, cada email, cada mensagem valeu a pena 😀

Adorei trabalhar com vocês ❤

Eu sei que o meu caminho nessa área de garotas e computação é pequeno ainda, mas eu adorei o que eu já vivi até agora! Eu quero muito poder continuar trabalhando nessa área e conhecer ainda mais garotas inspiradoras e poder inspirar um pouquinho mais. Eu só tenho a  agradecer todxs que estiveram no meu caminho até aqui, isso me faz e me fez muito feliz!

Science Camp – Elas na ciência

Ok, eu sei que tinha prometido no post anterior falar do Science Camp no sábado, mas para o bem de todos e felicidade geral da nação, extraordinariamente, hoje não tive aula de manhã e de tarde, apenas de manhã; por isso vou contar pra vocês o que é o “Science Camp – Elas na ciência” através de um pequeno FAQ que as pessoas tem me feito por aí.

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Logo do programa

Primeiramente, para aqueles que ainda não estão ligados, através deste programa eu consegui ser selecionada para ir para os EUA, pois eles disseram que das 90 participantes, eles selecionariam até duas para participar do National Youth Science Camp em West Virginia, e eu fui uma delas.

As meninas do Science Camp no CNPq

As meninas do Science Camp no CNPq

Bem, segundamente (nem sei se essa palavra existe), o que é o “Science Camp”?

O “Science Camp- Elas na ciência” é um projeto recém-criado da Missão diplomática dos Estados Unidos no Brasil em apoio aos esforços conjuntos previstos no Memorando de entendimento Brasil-Estados Unidospara desenvolvimento das mulheres e em especial apoio ao projeto “Ciências sem Fronteiras” do Governo Brasileiro. O projeto foi parceiro do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia(INPA), teve apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Tecnológico(CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), além do apoio institucional do Ministério da Inovação Tecnológica e do Ministério da Educação e do patrocínio da Coca-Cola Brasil, Fundação Nókia e ICBEU. (Pronto, acabei, uffa, e essa só foi a primeira edição, imagina o tamanho do rodapé das próximas…)

Este ano o evento aconteceu em Brasília e Manaus entre os dias 3-8 de março, em breve farei um post por dia sobre este evento no blog 😉

Mas este programa é só para meninas?

O Science Camp do Brasil é. Podem chorar boys. Depois falarei mais do americano que é misto xD;

Mas por que é só para meninas?

Apesar do crescente aumento de espaço das mulheres no campo da ciências, o número de mulheres ainda é muito tímido em comparação ao número de homens, principalmente na área de engenharia e Tecnologia da Informação (T.I.); segundo o portal do CNPq, as mulheres atualmente ocupam 34% das bolsas de pesquisa na área contra os 66% de homens, o que é uma disparidade visto que temos mais mulheres que homens no Brasil, mas já foi muito pior, em 2001 apenas 28% das bolsas eram femininas contra 72%. (fonte: http://www.cnpq.br/web/guest/estatisticas1), por esta disparidade é que este evento é exclusivo para meninas.

A embaixada tem outros eventos que incluem meninos também?

Sim, falarei sobre eles em outros posts 😉

Como você chegou até o Science Camp-Elas na ciencia?

Estas e outras aventuras você verá no post de sábado, fique ligado xD;