Legalizar o aborto não adianta

Já fazia um tempo que não postava e para voltar resolvi fazer um post polêmico. Antes que digam qualquer coisa, eu não sou contra a legalização do aborto, só acho que ela é uma luta perdida pois não adianta de muita coisa.

As pessoas que são a favor da legalização começam dizendo: “O aborto já é legal no Brasil, as que tem dinheiro abortam tranquilamente, enquanto as pobres morrem. Ser contra a legalização é ser a favor da morte dessas pessoas”. Eu até concordava com esta máxima, até visitar os Estados Unidos e saber um pouco mais da história por lá. Nos Estados Unidos o aborto é legal em todo o país desde 1973 (e em alguns estados, bem antes), mas isso não significa que as mulheres pobres tem o  direito de abortar por lá…

Nos EUA, como muitos sabem, não tem sistema de saúde público (nem um precário SUS, para ver um médico que dá diagnóstico de virose, se vire para pagar uns U$ 150,00 se não tiver plano), e nenhum plano de saúde inclui “aborto” nos seus procedimentos, então se a garota quiser abortar ela deve chegar com o money in cash (cerca de U$1000,00 a U$2000,00) e entregar antes de fazer o procedimento, além disso em muitos estados conservadores (principalmente no Sul) não há clínicas nem hospitais onde se pode fazer um aborto. Agora imagina uma garota pobre viajar estados e ainda pagar mais de mil dólares nisso, seria o equivalente de uma menina da Paraíba viajar até São Paulo e pagar uns 4, 5 mil reais nisso (procedimentos cirurgicos na rede particular são caríssimos assim), seria inviável! Meninas pobres nos EUA continuam morrendo em clínicas clandestinas [0], o que também aconteceria com meninas pobres no Brasil.

Mas pois bem, vocês devem argumentar  que no Brasil não é como nos EUA, nós temos o nosso amado SUS e que o amigo do seu parente foi muito bem recepcionado lá… Vamos combinar que o SUS é bom quando se trata de atendimento de emergência (aka diagnóstico de virose, vacinar a galera e engessar braços) mas se você quiser um atendimento de um médico especialista é muito difícil, e piora ainda mais no interior… Se a paciente não tiver condições de ir para uma cidade maior para se consultar com um obstetra, ela vai continuar parindo/abortando sem acompanhamento (mesmo com o mais médicos).

No caso de aborto a situação seria ainda mais difícil para essas mulhers: imaginem num Brasil católico quantos obstetras estariam dispostos a fazer abortos? Há um dado sobre a Itália (país tão cristão quanto o Brasil) que lá só 10% dos funcionários que poderiam fazer aborto fazem, a maioria  não faz por causa de motivos religiosos [1], não acho que no Brasil seria diferente.

Resumindo: a luta pela legalização do aborto é perda de energia, o aborto legal não garante aborto para mulheres pobres, é simplesmente uma questão de mera formalidade. É muito mais frutífero lutar para que haja educação sexual nas escolas (por exemplo, muitos sabem pouco sobre a pílula do dia seguinte), ou que mulheres pobres tenham assistência caso queiram ter filhos e não tenham condições, ou que para tenhamos uma licensa a maternidade e paternidade (porque cuidar dos catarrentos não é só obrigação da mãe) mais longas, ou para que empregadores tenham que fornecer uma creche para os funcionários que tivessem filhos.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s