Literatura costumbrista colombiana

Em 2013, fiz o seguinte texto que foi um dos ganhadores do concurso de redações “Camiños del mercosur”. Espero que apreciem:

CAMINHOS DO MERCOSUL 2013

A Rota do Café”

A literatura popular Colombiana:

O Costumbrismo

Ana Maria da Costa Ribeiro

Campina Grande – PB

Maio de 2013

    1. Introdução

A literatura chamada como popular colombiana na convocatória deste trabalho nada mais é que a literatura costumbrista da Colômbia. O costumbrismo, podendo ser melhor traduzido por costumismo, é uma corrente artística-literária típica de países de línguas espanholas, segundo Chang-Rodriguez e Filer o costumbrismo literário é

Tendencia o género literario que se caracteriza por el retrato e interpretación de las costumbres y tipos del País. La descripción que resulta es conocida como “cuadro de costumbres” si retrata una escena típica, o “artículo de costumbres” si describe con tono humorístico y satírico algún aspecto de la vida..” (CHANG-RODRIGUEZ e FILER1988, Voces de Hispanoamérica , p 535.)

Em outras palavras, podemos dizer que o costumbrismo se caracteriza principalmente por mostrar a realidade e costumes de seus países. Apesar de conversar com o realismo, o costumbrismo se diferencia deste por apresentar uma visão crítica da sociedade enquanto o primeiro limita-se a descrevê-la, tendo o autor como um elemento neutro.

Há autores que apresentam o costumbrismo como uma face do romantismo, “Esse gênero não existe descolado de outros movimentos literários, há uma vinculação entre romantismo e costumbrismo” (RIBEIRO, 2009, Costumbrismo, hispanismo e caráter nacional em Las mujeres españolas, portuguesas y americanas: imagens, textos e política nos anos 1870. , p. 49), no entanto a grande parte dos autores o considera como um gênero independente.

Apesar de ser um gênero literário normalmente associado a língua espanhola, as origens do costumbrismo são um tanto quanto duvidosas, há indícios de que na verdade ele nasceu na Inglaterra e na França, segundo KIRKPATRIK (1978, The Ideology of Costumbrismo, p.28) Calderón apresenta o costumbrismo como um gênero espanhol começado no século XVIII por Clavirjo e Farjado, no entanto, os próprios costumbristas espanhóis se apresentam como uma adaptação do modelo francês, tendo como principais preceptores Victor Joseph, Etiénne e de Addison e Steele da Inglaterra.

Entretanto, ainda segundo Kirkpatrik, o costumbrismo como gênero literário ganhou importância real na Espanha do século XIX pela necessidade de mostrar de alguma forma as mudanças sociais que estavam ocorrendo neste período. O país encontrava-se numa situação caótica: tinha passado pela crise da independência da maioria das suas colônias na América na primeira metade deste século. Além disto, foi um período marcado por conflitos internos e intervenção estrangeira. Neste contexto, os artistas tentavam retratar e analisar criticamente a sociedade através da margem para fazer observações mais desapaixonadas e críticas, por isso a maioria dos autores costumbristas usavam pseudônimos.

Na América espanhola, o costumbrismo começou a se espalhar como um gênero popular, o principal expoente latino-americano do costumbrismo é o Peru, porém a Colômbia também tem uma forte literatura deste gênero, que tem como um dos temas, a rota do Café. Este trabalho analisará o costumbrismo colombiano no contexto da rota do café.

    1. O Costumbrismo na Colômbia

O costumbrismo foi o início da busca de uma literatura própria a da Colômbia, pois perceberam que a literatura poderia ser construída a partir da observação dos costumes nacionais, sem precisar adotar padrões, cenários e personagens europeus para escrever. Neste país, o movimento aparece entre os anos de 1830-1880, os costumbristas colombianos se dedicaram a mostrar uma sociedade de um país que acabara de nascer.

Os principais temas abordados pelos costumbristas colombianos em suas obras eram a vida rural e campestre, onde se fala da vida, das crenças e das formas de expressão dos povos que viviam em áreas ; o encontro entre o campo e a cidade e o campo e a rejeição de uma nova visão de mundo; e a criação de personagens que representassem as pessoas da sociedade, para não correr o risco de citar nomes, como sacerdotes, fazendeiros, policiais, entre outros.

A literatura era escrita por grandes proprietários de terras cultos, que não se diziam escritores, mas nos seus momentos de ócio acabavam por escrever textos que retratavam a sua realidade – Os trabalhadores rurais e o encontro da cidade e do campo. Por isso, a rota do café é um tema frequente nestas obras, já que a agricultura colombiana é grande parte composta pelo cultivo do café.

As principais características da literatura costumbrista colombiana são as seguintes:

  • Predomínio da descrição no lugar dos diálogos;

  • Propósito didático, moral ou político;

  • Prosa regional e local;

  • Procura defender a tradição local no lugar de influências estrangeiras;

  • Gírias locais na sua linguagem;

A novela foi o maior dos gêneros literários do movimento costumbrista, com grande número de adeptos na Colômbia, dentre eles podemos destacar José Miguel Marroquín Riquarte, José Eustáquio Paláquio e José Eugênio Diaz Castro, do qual falaremos da sua novela Manuela.

      1. Análise da Novela Manuela

Na Colômbia,uma das principal novela que tem como palco as comunidades rurais, como a da rota do café, é “Manuela” de José Eugênio Díaz Castro (1858), que foi um homem de campo e de educação própria.

A novela começa falando sobre um rapaz altamente educado (Demóstenes Bermúdez), que já tinha ido para França e para os Estados Unidos, o que é um símbolo de status na sociedade colombiana da época, este rapaz era noivo e tinha rompido o seu relacionamento.

Para relaxar, vai até um povoado campestre situado a um dia de distancia de Bogotá. Esta região é conhecida pelo cultivo do café e da cana-de-açúcar. O povoado da novela é um que não existe na realidade, e é chamado “Las Parroquias”, ele tem como característica ter um povo simpático e acolhedor.

Neste povoado, Demóstenes se abriga na casa de pensão da jovem Manuela, uma moça de 17 anos que foi prometida em um casamento arranjado com Dámasco, um jovem que trabalha em Ambalema, uma cidade distante. Lá, eles tem extensos diálogos, onde é possível que o leitor conheça os principais pontos de uma comunidade campestre colombiana. Apesar de ambos estarem comprometidos, a relação entre Manuela e Demóstenes não deixa de ser um tanto romântica, em algumas passagens como a seguinte, em que a Manuela ensina Demóstenes a dançar, podemos ver o clima que existia entre os dois:

Manuela ejecutó la primera lección, y su maestro se quedó admirado de sus buenas disposiciones. Ella había bailado valse dos o tres veces.

-Ahora te dejas rodear la cintura con uno de mis brazos y me entregas una mano a todo mi albedrío,

Don Demóstenes rompió el baile por la orilla de la sala, pero la discípula se resistía.”(DIAZ CASTRO, Manuela pag:81)

Um dos personagens de que eles falam, é Tadeu Forero, um draconiano -Político liberal não extremista – que deixa o vilarejo apreensivo por causa da sua influência. Ele é um tinterillo (alguém que começou a se formar em direito mas nunca concluiu e por isso faz trabalhos burocráticos a baixos custos) e faz diversos trabalhos ilegais e que enganam a população, secretamente, ele estaria manipulando o resultado de eleições que estariam para acontecer em breve. Além disso, Tadeu Forero é um homem que abusa de jovens, anteriormente, a maior vítima dos seus abusos tinha sido uma jovem chamada Cecília, no entanto ele passa a perseguir Manuela. As intrigas, a perseguição e tudo isso fazem com que Manuela fique no eixo da novela e que toda história fique ao redor dela.

O livro tem um final trágico: Demóstenes volta a cidade para se reconciliar com sua noiva; Manuela resolve se casar com Dámasco, no entanto, Tadeu coloca fogo na igreja para impedir o casamento de ambos. A jovem morre e a população é invadida pelo governo que tenta combater a “Revolución”.

Neste livro podemos ver quase todas as características do costumbrismo. O autor cria personagens fictícios para representar figuras da sociedade comum da época: Temos a figura dos camponeses, dos fazendeiros, do rapaz rico da cidade, do homem de negócios que esplora as pessoas, os militares do governo.

Temos o campo e as relações das pessoas deste como palco principal do livro, que constroem o seus “Cuadros Costumbres”, no entanto, apesar de a literatura costumbristas normalmente ser associada a falta de diálogos e ter grandes descrições, no entanto Manuela tem muitos diálogos e grande parte das descrições são em forma de diálogo.

    1. Conclusão

Há os que dizem que café é a bebida dos intelectuais, e talvez seja mesmo: Ele da energia , vontade e inspiração para fazer árduos trabalhos, desde produções cientificas à literárias. Esta energia trazida pelo café também é a energia do desenvolvimento econômico e social que vinheram para as províncias de Quíndio, Caldas e Risaldas, é a energia que faz belas paisagens e que também dá fama a Colômbia; mas não é só isso: As plantações deste belo grão também são inspiração para uma das literaturas mais facinantes que existe: O Costumbrismo Colombiano.

Estas plantações, cercadas de povoados cheios de gente amável, foram genialmente retratadas nas novelas e contos, através do “cuadro de costumbres” vemos nas palavras dos gênios da literatura o quão bela e emocionante as paisagens da Colômbia são. Já através dos “artículos costumbres”, era possível ler a crítica desses autores da sociedade em que habitavam.

Através destes relatos, a Colômbia foi montando a sua literatura: Sem temas Europeus ou de outras regiões do mundo. Podemos concluir que a observação do seu próprio país e cultura já é suficiente para a construção de uma literatura nacional fantástica.

REFERÊNCIAS:

Chang-Rodríguez, Raquel y Filer, Malva E.: Voces de Hispanoamérica. Antología literaria. Heinle & Heinle Publishers, Inc. Boston, Massachusetts, l988.

RIBEIRO, Edméia Aparecida. Costumbrismo, hispanismo e caráter nacional em Las mujeres españolas, portuguesas y americanas: imagens, textos e política nos anos 1870. Assis, 2009, 266 p. Tese (Doutorado em História) – Universidade Estadual Paulista.

KIKPATRICK, Susan. The Ideology of Costumbrismo. University of California, 1978.

Díaz Castro, José Eugenio. “Manuela” (1858). Edição online, disponível em <http://www.biblioteca.org.ar/libros/10024.pdf>, acesso em 25 de Maio de 2013.

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